28 abril, 2011

LITURGIA - INTRODUÇÃO - PARTE 1

INTRODUÇÃO À LITURGIA.

1.       No principio dos seus Exercícios Espirituais, S. Inácio de Loiola define com poucas palavras o dever do homem para com o seu Criador. "O homem foi criado para louvar a Deus, Nosso Senhor, prestar-Lhe reverência e servi-Lo e, fazendo isto, salvar a sua alma. A s outras coisas na terra foram criadas por causa do homem e para o ajudar na consecução do fim, para o qual foi criado”.

Estas palavras são unia introdução adequada à Liturgia sacra. Pois o homem, criatura de Deus que é, depende dele completamente; a sua dependência deve-a reconhecer e manifestar.Pela reverência interior reconhece a soberania de Deus sobre a sua alma, fazendo, por exemplo, os atos de fé, esperança e caridade; é o culto interior. Pelo louvor e serviço manifesta os sentimentos de sujeição por meio de sinais sensíveis; é o culto exterior. O homem não está sozinho na terra; há "outras coisas, criadas por causa dele."

Estas outras coisas são, em primeiro lugar, os outros homens, vivos e mortos; em segundo lugar as criaturas irracionais, vivas e inanimadas. Devem auxiliá-lo na consecução do seu fim; devem, portanto, em ação comum com ele, servir a divina Majestade. Este serviço comum de todas as criaturas é serviço de Deus, é Liturgia, na acepção mais lata, embora imprópria, porquanto inclui todos os deveres do homem. Nesta disciplina, porém, tornamos a palavra Liturgia no seu sentido próprio, significando um dever especial, o culto direto do Criador, cujos atos abrangemos com o nome de Virtude de Religião.


§ 1. NATUREZA DA LITURGIA.

2.       I. Definição nominal. A palavra Liturgia significava:

          1) Na antiguidade, uma função profana, pública, não remunerada, p. e., a função de juiz, de festeiro de jogos públicos, de diretor de teatro, de armador de navio, mesmo de operário público. Pois a palavra Liturgia deriva-se de leiton = do povo; e érgon = a obra, o ministério; e denota qualquer ministério exercido em nome ou em favor da comunidade.
          2) Em o novo testamento, um encargo público, embora profano, na comunidade religiosa. Assim o cuidado dos pobres na cristandade de Corinto tem este nome, 2 Cor 9, 12: "ministerium huius officii".
          3) Uma função pública sacra da Igreja: a pregação da palavra divina, as orações dos clérigos, principalmente o sacrifício. Já no antigo testamento o serviço dos sacerdotes e levitas no santuário se chama Liturgia (Ex 28, 39), em o novo testamento o serviço sacro de Zacarias é Liturgia (Lc 1, 23); principalmente Jesus Cristo é chamado leitourgos. (Heb 8, 2.) Os Santos Padres muitas vezes falam da Liturgia sacra, entendendo todo o serviço sacro do clero.
          4) O sacrifício do novo testamento. Nas constituições apostólicas (c. 380) a missa é chamada Liturgia. Desde o século 9° os gregos usavam este termo para designar a missa.

3.       II. Definição essencial. Esta é formada do gênero próximo e da diferença específica. Tal é a seguinte definição: Liturgia é o culto da Igreja. "Culto" é a noção genérica, pois culto pode significar uma série de atos (obj. mat.), ou uma homenagem prestada (efeito do culto), ou a inclinação interior para esta homenagem. Na definição entra "culto" no primeiro sentido. "Igreja" é a noção específica, pois o culto da Igreja não é culto só interior, mas também exterior; não é culto individual e privado, mas social e público; não é arbitrário e natural, mas prescrito e oficial. Estes termos: exterior, público e oficial estão incluídos na noção de "Igreja", que necessariamente tem estas qualidades. (Cf. Hansens, Gregorianum, 1927, p. 204-228; Coelho I; Eph. Lit. 1927, p.405-412.)


§ 2. ORIGEM DA LITURGIA.


4.       Do que fica dito, se vê a veneranda origem da Liturgia católica.

1. As partes essenciais da missa foram instituídas pelo próprio Jesus Cristo, quando, na véspera da sua sagrada paixão, disse a primeira missa na presença dos apóstolos. O Padre Nosso, parte integrante de todas as Liturgias, foi ensinado por ELE. Os santos sacramentos, quanto à forma essencial, foram todos instituídos por Nosso Senhor.

5.       2. Estas partes essenciais, no decurso do tempo, foram cercadas de cerimônias, ora simples, ora majestosas, todas, porém, convenientes; e de preces adequadas. O que primitivamente foi uso legítimo, posteriormente foi sancionado pela Igreja em virtude do poder legislativo outorgado a Pedro e seus sucessores: "O que ligares sobre a terra, será ligado no céu; o que desligares sobre a terra, será desligado também no céu." (Mt 16, 19.)
A Liturgia é, por conseguinte, de origem divina, parte diretamente e parte indiretamente; deve ser tratada com muito respeito.


§ 3. OBJETO DA LITURGIA.


6.       As ações litúrgicas são múltiplas; apesar disto formam conjunto bem ordenado. Esta unidade interior em todas as manifestações e ramificações do culto tem o fundamento no objeto a que se referem, e no sujeito que as põe em prática.

1. O objeto primário da Liturgia sacra é Deus. (Eisenhofer I, 6; Gatterer, Annus liturgicus, p. 7; Vigourel, Cours synthet., p. 4.) A Ele só compete adoração, a Ele só se oferece o sacrifício da missa.
Ora à SS. Trindade, ora a Deus Padre, ora a Deus Filho, ora ao Espírito Santo é que se presta o culto explicitamente. Pela doxologia: "Glória ao Padre, e ao Filho e ao Espírito Santo", é glorificada muitas vezes durante o dia a SS. Trindade. Nas orações da missa, a petição as mais das vezes se dirige a Deus Padre: Omnipotens sempiterne Deus... A Deus Filho são consagradas as festas mais solenes do ano eclesiástico: natal, páscoa, corpo de Deus e outras. O Espírito Santo invoca-se frequentemente, p. ex., no ofertório da missa: Veni sanctificator... Este é o culto latrêutico (de "latria" = adoração).

7.       2. Objeto secundário é: a) o culto dos Santos, e principalmente de Maria SS.: aquele chama-se culto de dulia ou de veneração, este, culto de hiperdulia ou de veneração toda especial. b) o culto dos objetos que têm relação com Jesus Cristo e sua obra de redenção. Tais são, p. ex., as relíquias do santo Lenho, as relíquias e imagens dos santos. É o culto relativo (cân. 1255). c) o culto de pessoas ainda vivas e de coisas sagradas. Ante o bispo, p. ex., se fazem genuflexões, ante o sacerdote, inclinações. De incensação são, julgados dignos não só os clérigos, mas também leigos eminentes e todo o povo. Esta honra concede-se por motivos religiosos e refere-se, em última análise, a Deus.

S. Inácio de Antioquia (Ep. ad Trail. 3, 1) ensina: Todos devem honrar os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é a imagem do Pai, e aos sacerdotes, como ao senado de Deus. A escritura sagrada diz: Sois... um povo santo. (1 Ped 2, 9.)

8.       3. Assim se explica o culto das coisas sagradas, p. ex.: o ósculo do evangeliário, das velas, dos ramos bentos. Estas honras entendem-se prestadas ao símbolo de Jesus Cristo (evangeliário), ou a Cristo santificador que distribui suas graças pelos objetos bentos.
4. Os sacramentos em geral, as orações, os exorcismos são culto de Deus, porque no seu uso se glorifica a misericórdia, a bondade e a onipotência de Deus. Por conseguinte é Deus o único objeto da Liturgia.


§ 4. SUJEITO DA LITURGIA.


9.        1. O primeiro sujeito da Liturgia é Jesus Cristo. É o ministro principal; sua morte na cruz foi o sacrifício, que devia conciliar a humanidade pecadora com Deus, e Ele mesmo foi o sacerdote, o liturgo, que se ofereceu a seu Pai celeste.
Este sacerdócio ainda continua no céu; pois "sendo Jesus eternotem um sacerdócio eterno." (Heb 7, 24.)
Na terra Ele é o liturgo principal na missa. Pois o concílio tridentino (sessão 22, c. I)declara: "É o mesmo que agora se sacrifica pelo ministério dos sacerdotes e que se ofereceu. na cruz."
Ele é o liturgo principal na administração dos sacramentos. Célebres são as palavras de S. Agostinho (Tract. 6 in Jo n. 7) : "Se Pedro batiza, é Este (Cristo) que batiza;se Paulo batiza, é Este que batiza; se Judas batiza, é Este que batiza." O mesmo vale dos outros sacramentos.
Jesus Cristo é o liturgo principal nos vários atos do culto, na oração pública, nos sacramentais, ainda que não tenham sido instituídos por Ele, Instituiu-os a Igreja, autorizadapor Ele e unida a Ele como à Cabeça.

10.     2. O liturgo secundário é o sacerdoteque recebe o poder no sacramento da ordem. Atua não só em nome de Jesus Cristo, mas também em nome da Igreja, como seu representante legitimo. Suas orações litúrgicas têm por isso valor independente da sua santidade pessoal, baseado nos méritos da Igreja, que "é amada por Cristo." (Ef 5, 25.)

11.     3. Liturgo secundário, ao menos de alguma maneiraé cada um dos fiéis, incorporados pelo caráter batismal em Jesus Cristo, único Sacerdote. São "sacerdotes (S. Thorn. III, 63, 5: Character sacramentalis est qumdam participatio sacerdotii Christi in fidelibus. Jürgensmeier, Der mystische Leib Christi, p. 289. Gatterer, Ann. lit. p. 8) de Deus e de Cristo." (Ap 20, 6.) O fiel, portanto, não só assiste à missa, mas oferece-a. Não pode chamar a vítima do céu como o sacerdote, mas pode oferecer a Deus a vítima, tornada presente, como o seu sacrifício, em união com o sacerdote sacrificador, em dependência Dele e unido a toda Igreja, Corpo Místico de Jesus Cristo. Pois o sacrifício eucarístico é o sacrifício de todo o Corpo Místico de Jesus.

"Toda, a reunião dos santos é o sacrifício universal oferecido a Deus pelo sumo Sacerdote. Também Ele se ofereceu por nós, na paixão, para que fôssemos o corpo de Cabeça tão digna... Este é o sacrifício dos cristãos: muitos um corpo em Cristo. E a Igreja repete esta verdade, muitas vezes pelo sacramento do altar, conhecido aos fiéis, onde é evidente que, na matéria que oferece, ela mesma é oferecida." (S. Ag., De civ. Dei, 1. 10, c. 6.) Portanto o fiel cristão é sacerdote e vítima com Nosso Senhor.

12.     4. Esta verdade católica do Corpo Místico de Jesus Cristo é a base teológica do movimento litúrgicocujo fim principal é ensinar aos fiéis a cooperar no sacrifício do altar o mais ativamente possível. Pois o fruto chamado geral será tanto maior para os fiéis, quanto mais ativa for a sua cooperação.

Esta pode ser exercida:

1. Pela intenção implícita (habitual), em virtude do fato da incorporação no Corpo Místico, ou por outra, de pertencer à Igreja católica; é isto o suficiente para tomar, parte de alguma maneira no fruto da missa.

2. Pela intenção explícita passada que, uma vez feita e não revogada (chamada virtual), é eficaz para apropriar à alma o fruto de uma ou mais missas, p. ex., de um dia inteiro.

3. Pela intenção atual, a mais frutuosa, assistindo realmente ao santo sacrifício. Esta assistência, e, por conseguinte também o fruto, difere conforme o grau da atividade espiritual ou corporal de cada umQuanto maior for a atenção e devoção, tanto maior será o fruto.Se alguém contribui para à celebração da missa, cantando ou desempenhando qualquer função, p. ex., de ajudante, ministro, terá aumento do fruto correspondente ao grau do seu ofício e trabalho. (Coelho I, p. 162.)
Maior ainda é o fruto especial que compete àquela pessoa, por quem é oferecido o santo sacrifício; e o fruto especialíssimo, que pertence ao celebrante.

§ 5. A EXCELÊNCIA DA LITURGIA.


A Liturgia católica é de excelência grandiosa.

13.     1. É magnífica glorificação de Deus. Todas as perfeições divinas são objeto do seu culto; contínuas são as expressões de agradecimento, louvor, de homenagem. A Igreja imita os santos do céu (Ap 4, 11) ; dando honra e glória ao Altíssimo, associa-se a eles (prefácio da missa); chama ao serviço dÊle todas as criaturas, todas as ciências, todas as artes.

14.     2. É fonte da fé católicapois nela a Igreja depôs parte da tradição católica. O papa Celestino diz que "a lei de rezar estabelece a lei de crer". Por isso das palavras usadas nas fórmulas das orações e hinos se pode deduzir a fé católica. Assim S. Agostinho prova pelo rito do batismo que todos nascem com o pecado original. (De pecc. merit. 1. 1, c. 34.)

Na bula sobre a Imaculada Conceição, entre os argumentos que provam esta verdade, aduz o papa Pio IX também a Liturgia: "A própria Igreja manifestamente insinuou esta doutrina (da Imaculada Conceição), quando não duvidou de propor a Conceição da Virgem SS. ao culto e à veneração pública dos fiéis. Com este fato ilustre propôs a Conceição da Virgem SS. como maravilhosa e completamente santa e veneranda, já que a igreja só celebra as suas festas de coisas santas." (Eph. Lit. 1935, p. 369 sqq, onde, partindo da Liturgia, se prova a divindade e humanidade de Cristo, sua dignidade de Rei, Redentor, Sacerdote, Medianeiro.)

15.      3. A Liturgia é meio de santificação. A perfeição é, antes de tudo, o efeito da graça divina: "Sem mim nada podeis fazer." (Jo 15, 5.) Os sacramentos, orações e sacramentais são as fontes inexauríveis da graça santificante e atual. Na Liturgia se acha a força para tornar a alma pura, para combater e desarraigar os vícios e os defeitos morais.

A Liturgia é escola de todas as virtudes pela leitura contínua da sagrada escritura, da vida dos santos, pela memória da vida, morte, e triunfo de Cristo Redentor, e dos exemplos do seu Coração divino, no ciclo das festas do ano litúrgico. A alma aprende a amar a cruz, a cultivar a vida interior, a professar publicamente a fé, a desprezar o respeito humano, a evitar as fraudes do mundo e do demônio, a chegar à íntima familiaridade com Deus. (Piacenza, Lit. p. 5; Coelho, p. 168-191; Hildebrand: Liturgie und Per -.sônlichkeit.)

16.      O papa Sisto V exalta os efeitos da Liturgia, dizendo: "Os santos ritos e cerimônias de que a Igreja, ensinada pelo Espírito Santo em virtude da tradição e do regime desde os apóstolos, usa na administração dos sacramentos, nos ofícios divinos, em toda veneração de Deus e dos santos, contêm abundante instrução para o povo cristão e profissão da verdadeira fé; chamam a atenção para a majestade das coisas santas, levantam o espírito dos fiéis à meditação das coisas mais sublimes e inflamam-no com o ardor da devoção."

17.     O célebre poeta francês Paulo Claudel era livre pensador, mas converteu-se (1890). Descreve as emoções da alma que sentiu assistindo à missa, na igreja de Notre Dame, em Paris, anos antes da sua conversão: "Passava os meus domingos em Notre Dame e também durante a semana tenho ido lá, quantas vezes me foi possível. Naquele tempo era ainda tão ignorante em religião como talvez se possa ser no budismo. E então desenrolou-se diante dos meus olhos o sagrado drama com uma grandiosidade que sobrepujou toda a minha imaginação. Ah! isto verdadeiramente não foi mais a pobre língua dos devocionários. Foi a poesia mais profunda e grandiosa, foram os gestos mais sublimes que jamais foram permitidos a um ser humano. Não me podia saciar olhando o espetáculo da santa missa, e cada um dos movimentos do sacerdote se gravou profundamente no meu espírito e no meu coração. A leitura do ofício dos defuntos, da liturgia do natal, o espetáculo da semana santa, o canto celestial do Exsultet, a cujo lado os sons mais entusiásticos de Píndaro e Sófocles me pareciam insulsos, ludo isto me arrebatou de alegria, gratidão, arrependimento e adoração." (Lamping, OFM., p. 228.)

18.      4. A excelência da Liturgia foi intensivamente salientada pelo movimento litúrgico moderno. O seu precursor foi Gueranger com o seu "Ano Litúrgico" (1841). O movimento litúrgico atual tem a sua origem na reforma da música sacra por Pio X (1903). Se o povo toma parte no canto litúrgico, é natural exigir que entenda as palavras do texto. E se assiste à missa solene, é lógico adverti-lo que compareça á missa rezada e outros atos litúrgicos.

O movimento litúrgico quer, portanto, proporcionar ao povo a possibilidade de entender melhor a Liturgia e, pelos ensinamentos nela contidos, contribuir para a reforma e perfeição da vida cristã. Consegue este fim teórica e praticamente. A teoria compreende as instruções sobre a liturgia dos sacramentos e sacramentais, as práticas litúrgicas, semanas e revistas litúrgicas, a arte litúrgica, a tradução dos textos litúrgicos. A prática é de maior importância. Abrange a assistência à missa, a celebração das missas solenes e cantadas e o canto do povo, o uso piedoso dos sacramentos e sacramentais, as procissões, exposições do Santíssimo, a vida com os tempos litúrgicos, as devoções públicas e privadas correspondentes aos tempos litúrgicos. Tudo isto é louvável e próprio para remediar a ignorância de não poucos que não sabem distinguir a missa da bênção eucarística. O movimento litúrgico promove especialmente a missa dialogada.

19.     5. Missa dialogada chama-se o santo sacrifício celebrado não só com assistência mais ou menos passiva do povo, mas com a assistência decididamente ativa. O sacerdote reza no altar e o povo responde. É diálogo.
Esta forma de celebrar a missa tem o seu sólido fundamento na qualidade da missa como ação litúrgica comum do sacerdote e do povo e na verdade do Corpo Místico de Jesus Cristo. Rege-se pelas rubricas do missal e pelos decretos da S. Congregação dos Ritos.

1. Na missa rezada os fiéis podem responder junto com o ministro (ajudante) aquelas fórmulas, pelas quais o celebrante se dirige ao povo. Não existe rubrica que o proíba.
2. Sem licença do Bispo é permitido aos fiéis responder junto com o ministro ao Confiteor (Rit. cel. III, 9, 10), Kyrie (IV, 2) e Orate fratres (VII, 7). Por isso podem os fiéis rezar em latim o Confiteor com o ajudante para a comunhão, dentro e fora da missa.
3. Só com licença do Bispo, especial para cada comunidade (in singulis casibus, S. C. R. 30 nov. 1935), é permitido aos fiéis responder. Ao C junto com o ministro, em todas as partes em que o ministro responde, p. ex., Deo gratias; Laus tibi, Christe; etc.

20.     4. Sem a dita licença especial do Bispo não se permite recitar junto com o sacerdote o Glória, o Credo, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei. (S. C. R., 30 de nov., 1935.) Nem o Glória, nem o Credo, nem salmo algum, ao menos no século IX, foi cantado pelo povo. E não se pode provar que mais tarde os fiéis tivessem o direito de dizer na missa rezada, junto com o C, aquelas partes que podiam cantar na missa solene. As partes que na missa solene são cantadas pelo côro e pelo povo, por lei constante da Igreja, foram confiadas na missa rezada exclusivamente ao sacerdote.

5. É contra a tradição constante e antiqüíssima o povo recitar em comum com o sacerdote o Pater noster. (S. Greg. Mag., ep. 12.)
6. Outras fórmulas, p. ex. Domine non sum dignus, não foram permitidas ao povo.
7. É proibido que se diga a missa sem ajudante varão, e que o povo responda em seu lugar. (Can. 813.)
8. É proibido que os fiéis leiam em voz alta as secretas, o cânon, e as palavras santas da consagração. Estas partes devem ser rezadas pelo sacerdote, em voz baixa, com exceção de poucas palavras. O que se não concede ao C, não se pode conceder ao povo. (d. 4375.)

21.     9. Supõe-se sempre que o celebrante consinta em se dizer a missa dialogada. Em diversos decretos a S. Congregação dos Ritos declara: nem tudo o que é licito é também oportuno, por causa dos inconvenientes que facilmente resultam, pela perturbação que podem sofrer os sacerdotes com detrimento da ação santa e das rubricas (d. 4375), e isto ainda mais na recitação em comum do Glória, Credo, etc. (30 de nov. 1935.)

22.     10. Impropriamente chamam missa dialogada àquela em que um leitor reza as partes do sacerdote ou parte de oração litúrgica e o povo responde ou continua os orações começadas. Também para este método vale a proibição de não ler em voz alta as secretas e o cânon. (d. 4375; Periódica 1936, p. 57*, Eph. Lit. 1934, p. 121.) A S. C. R. não favorece a missa dialogada. Por isso diz o C. B. (n. 199): "§ 1. Segundo a mente da S. Sé convém guardar a praxe comum,conforme a qual a reunião dos fiéis, que assistem à missa, não responda em comum ao celebrante. § 2. Nem se pode aprovar o uso, que leiam em voz alta a secreta, o cânon e mesmo as palavras da consagração."

Por Pio XII (Encic. 29-6-1943) foi condenado o liturgismo deprimente que tira o valor da oração privada, mina o amor à Igreja que é venerável também nos seus representantes, descura da devoção, a Maria Santíssima, descuida-se da honra divina de Jesus Cristo, e exagera o mistério do Corpo Místico de Cristo, querendo identificar o homem com Cristo, ao passo que este mistério é "a união da fé em Cristo e na Igreja e pela Igreja."

§ 6. ATOS LITÚRGICOS.


23.     Para que um ato de culto seja litúrgico ou público, duas condições são necessárias (cân. 1256; Vermeersch, Epit. i!lr. c. II, p. 309; Gatt. A. lit., p. 14) :
1) que o ato se faça em 'nome da Igreja, i. é, que se usem as fórmulas prescritas nos livros litúrgicos; pois obrigando a Igreja a uni rito prescrito, outorga também a autorização para fazê-lo legitimamente.
2) que seja realizado por pessoas legitimamente deputadas para tais atos, ou realizado com atos por instituição da Igreja só permitidos no culto de Deus e dos santos e bem-aventurados.
Atos, litúrgicos são não só a missa e administração dos sacramentos, mas também o ofício divino, a exposição do SS. Sacramento; as procissões da candelária, do domingo de ramos, do corpo de Deus, das rogações.

24.     Se falta uma destas condições, o ato é extra-litúrgico. A procissão do encontro, da ressurreição, de Nosso Senhor morto, na sexta-feira santa, são atos extra-litúrgicos, pois que a forma não está prescrita nos pormenores pelo ritual. A recitação do rosário, sem exposição do SS. Sacramento, é ato extra-litúrgico, embora a presida ministro legítimo. Se o rosário é seguido da exposição do SS. Sacramento, a parte litúrgica principia pelo Tantum ergo; pois só a bênção eucarística tem forma prescrita pela Igreja.

Esta diferença é de importância na aplicação das normas legais. A S. C. R. exige a observância dos decretos principalmente nos atos litúrgicos; nos atos extra-litúrgicos cede muito ao costume e a discrição dos ordinários. Assim, p. ex., é permitido o uso do órgão na quinta e sexta-feira santa as devoções extra-litúrgicas, mas se proíbe para acompanhar as lamentações e outras partes litúrgicas. (d. 3804 ad 2; 4044 ad 1.)



§ 7. FUNÇÕES PÚBLICAS E PRIVADAS.


25.     1. Quanto ao ministro e ao ritotodas as funções litúrgicas são públicas. Pois para este efeito basta que o ministro seja legítimo representante de uma comunidade, e é da Igreja. Isto se realiza nas funções litúrgicas, já que Jesus Cristo, em cujo nome o liturgo oficia, representa toda a Igreja; Ele é a Cabeça da Igreja e a Igreja seu Corpo Místico. Por isso qualquer missa é função pública.

26.     Quanto ao lugar e à presença do povo, as funções são públicas ou privadas. Chamam-se públicas, quando se realizam em lugar público e na presença do povo ou de comunidade. Neste sentido são missas públicas a missa conventual (na acepção rigorosa do termo) e a paroquial, dando-se o nome de missa privada às outras. As funções chamam-se solenes,quando celebradas com maior número de ministros e aumento de pompa em cantos, luzes, incenso, paramentos, bandeiras.


§ 8. RITO, CERIMÔNIA, RUBRICA.


Algumas noções que ocorrem frequentemente necessitam de explicação.

27.     1. 0 rito (da palavra latina "ritus" = modo costumado) significa a forma exterior dos atos litúrgicos. Designa:
1) a liturgia total de uma igreja, p. ex., o rito romano (cân, 733) ;
2) função litúrgica total: p. ex., o rito de enterro; no ritual se usa a palavra "ordo": Ordo exsequiarum, Ordo baptismi parvulorum;
3) função litúrgica particular, p. ex., o rito de incensação.

28.     2. Cerimônia é de derivação incerta.

Valério Máximo (1, I, 10; vivia no tempo de Augusto e Tibério; Pauly, t. 3, p. 1281; Coelho I, p. 75; Bona, Psalmod. c. 19 § 3, propõe a derivação de raiz latina car = fazer, de caerus = santo, de Cereris munia, de carere, S. Agostinho) deriva a palavra do nome da cidade de Caere, na Etrúria. Devido à invasão dos gauleses no ano 390, as virgens vestais e os objetos confiados aos flâmines foram transferidos para esta cidade, a fim de estarem seguros. Os atos cultuais destas corporações (de flâmines e vestais) foram designados com o nome de cerimônias. Esta explicação tem a vantagem de ser a mais antiga, menos arbitrária e com fundamento num fato histórico = caere-munia =regra ou rito de Caere. (Maldonad S. J., Merati, Zaccaria.)

Significa:
a) mesmo que rito; assim se fala do cerimonial dos bispos, de mestre de cerimônias;
b) ações acidentais; cân. 733: "In sacramentis conficiendis... acurate serventur ritos et cceremonice."Portanto rito difere de cerimônia. "Ritus designat partes principaliores modi offerendi sacrificium et conficiendi vel ministrandi sacramenta, praecipue adhibendas formulas et orationes; czeremoniae sunt potius secundaria observanda, maxime comitantes gestus." (Vermeersch, Epit. jur. can. II, n. 18.)

O Concílio Tridentino (s. 22, c. 5) dava o nome de cerimônia também à "bênçãos, luzes, incenso, paramentos e outras coisas semelhantes."

29.     3. Rubrica significa as leis litúrgicas, que regem os ritos e cerimônias.

As rubricas têm o nome de tinta rubra, com que eram escritas e impressas. O termo, usado primeiro no direito civil e canônico para indicar os títulos e o resumo das leis, passou para o uso litúrgico; e afinal as rubricas, mesmo impressas com tinta preta, conservaram o nome.
São gerais, quando comuns a muitas cerimônias; especiais, quando são próprias de uma só. (Rubricas gerais no missal e no breviário).


§ 9. FIM DAS CERIMÔNIAS.


30.     Comentando as declarações do Concilio Tridentino (S. 22, c. 4 et 5) e do papa Sisto (Bula Immensa, 1588) na ocasião de instituir a S. C. dos Ritos, podemos dizer que o fim das cerimônias é:
1. Estéticopois as cerimônias servem para "realçar a majestade" do ato. A estima do povo cresce na razão direta da pompa exterior de uma solenidade (inauguração de academia, de estátua, chegada duma personagem de destaque; entrada de Jesus em Jerusalém, último juízo). Este fim obtém-se pelo número' elevado de ministros, pela preciosidade dos paramentos, etc.

31.     2. Latrêuticopara exprimir a adoração: "para que o espírito do povo se levante para Deus"praticando os atos de fé, esperança e caridade, e adoração. Tais cerimônias são a genuflexão, a inclinação da cabeça ao nome de Jesus, à elevação da santa hóstia, o estender dos braços, o levantar das mãos na oração.

32.     3. Simbólico. Há cerimônias que não foram introduzidas pela Igreja para ter significação simbólica. Já Durandus observa (Durandus, Rationale; prooem. n.° 17) : "Cumpre bem notar que existe na recitação do divino ofício bom número de costumes, que não foram instituídos expressamente para ter significação moral ou mística. Mas, como se vê, alguns por causa da necessidade, outros por causa da oportunidade, outros por causa da sua conveniência, alguns por causa da maior solenidade dos mesmos ofícios, pouco a pouco se introduziram."

33.     Esta circunstância foi exagerada por alguns; rejeitaram qualquer explicação simbólica das cerimônias. (Vert +1708.) Mas logo outros declararam que tal afirmação contradiz a doutrina sobre os sacramentos, onde a matéria indica o efeito.
A explicação simbólica deve-se admitir. O uso dos símbolos condiz com a natureza humana que, com auxílio das coisas perceptíveis aos sentidos, mais facilmente compreende certas verdades; com a sagrada escritura (os muitos símbolos do rito no antigo testamento); com o costume cristão (peixe, cordeiro) e da própria Igreja: pela mistura da água com o vinho "é simbolizada a união do povo cristão com Cristo, sua Cabeça" (Trid. s. 22 de sacr. missae c. 7); com a doutrina de S. Tomás (III, q. 83 a. 5).

Um dos mais conhecidos símbolos da escritura é a videira. Nosso Senhor tornou-a por símbolo de sua íntima união com a Igreja, facilitando assim a compreensão deste mistério. Pois os israelitas bem o conheciam como símbolo do povo de Deus, pelas palavras dos profetas (Oséias 10, 1), e mais ainda pela videira monumental que Herodes I tinha mandado colocar na entrada do templo de Jerusalém. Obra de arte e beleza única, estendia-se acima e em redor da porta gigantesca de 70 côvados (c. 35 m) de altura, guarnecendo-a completamente. Os ramos, as gavinhas e as folhas eram de ouro puro; os cachos de uva tinham o tamanho de homem, os bagos eram pedras preciosas. Judeus ricos e patriotas aumentaram-na com novas uvas, novas folhas, e novos bagos. O valor talvez era de muitos bilhões de cruzeiros. De noite resplandecia iluminada com profusão; era o orgulho da nação.

Com razão diz Durandus (prosem. n.° 1) : "Tudo quanto se acha nos ofícios da Igreja, nos seus objetos e ornamentos, está cheio de sinais e mistérios e transborda de doçura celeste, contanto que haja quem reflita atentamente."

34.     Estes sinais ou símbolos são morais ou místicos.

a) Os morais indicam verdade relativa à moral, p. ex., as vestiduras sacras, cuja significação é indicada nas orações prescritas para benzê-las ou vesti-las.
b) Os místicos indicam coisa fora da que é indicada pelo texto ou pela ação, p. ex., a mistura de água e vinho simbolizam a união da natureza humana com a natureza divina em Jesus Cristo, e a união do povo cristão com Cristo.

35.     Este simbolismo estende-se a todos os objetos do culto. No rito da ordenação dos subdiáconos a Igreja diz: "O altar da santa Igreja é Cristo, como S. João no seu apocalipseafirma ter visto um altar de ouro colocado, perante o trono, no qual e pelo qual as ofertas dos fiéis são consagradas a Deus Padre. As toalhas e corporais são Os membros de Cristo, os fiéis..."

36.     Onde não há explicação oficial, permitem-se explicações privadas prudentes. Isto vale especialmente da missa. Já no fim do século VII, pela primeira vez foi explicada como representação da vida, paixão e glorificação de Nosso Senhor. (Expos. br. Antiqu liturgia gall., Eisenh. I, 120.)


10. DIFERENÇA ENTRE LITURGIA
E AS OUTRAS CIÊNCIAS TEOLÓGICAS.


37.     I. A Liturgia é ciência. Possui objeto próprio: Deus (publice colendus) que deve ser venerado publicamente. Prova as suas asserções por razões externas e internas derivadas dos princípios revelados: Deus deve ser venerado publicamente, mormente pelo santo sacrifício e pelos sacramentos.
Por conclusões metódicas codifica seu sistema doutrinal.

38.     II. Liturgia é ciência teológica. Muitas verdades tratadas na Liturgia, embora não em toda a extensão, são tiradas da revelação divina e pertencem como dogmas à matéria da fé católica: as verdades relativas ao SS. Sacramento, ao santo sacrifício, aos sacramentos, à virtude da religião. (Mt 4, 10.) Estas verdades dogmáticas são a base sólida da Liturgia, realçam com a sua luz a importância dela e influem na sua execução.

2. Por isso também teólogos (S. Tomás, III q. 83 a. 5 e seus comentadores) tratam da Liturgia em suas obras dogmáticas. Em todas as obras de teologia moral há tratados sobre a Liturgia da missa e dos sacramentos. Numerosas (Eisenhofer, 118-140) são, p. ex., as explicações da missa, obras sem dúvida litúrgicas, que desde mil anos foram escritas em forma dogmático-ascética, por conseguinte teológica.

3. Os principais livros do culto público, missal, breviário e ritual, não são livros de direito canônico.
4. Os ritos mais essenciais, usados na Liturgia do santo sacrifício e dos sacramentos, foram instituídos pelo divino Redentor. Todos os outros ritos principais se podem considerar como ampliação daqueles. (Vigourel, p. IV.)

39.     5. Devem-se distinguir bem Liturgia e direito litúrgico. Só este último pertence ao direito canônico, que se ocupa exclusivamente do foro externo. (Cân. 2.) A Liturgia não só trata das leis eclesiásticas, mas também de outras matérias, do conhecimento dos ritos em si mesmos e das causas históricas ou simbólicas que os motivaram, e sempre visando o culto, que é essencialmente externo e interno. Várias rubricas exigem que a cerimônia se faça "reverenter", com reverência; esta, porém, é essencialmente interior. (Thom. 2, 2, q. 84, a. 2: "Quia in omnibus actibus latrim id quod est exterius ref ertur ad id quod est interius sicut ad principalius, idea ipsa exterior adoratio fit propter interiorem.") O Concílio Tridentino (s. 22, c. 4) designa como fruto da Liturgia "que o espírito dos fiéis seja levantado para Deus": coisa interior. Por isso também canonistas avisam que a Liturgia e o direito litúrgico são coisas diferentes. (Vermeersch, Ep. jur. II, p. 310.)
Na Liturgia a matéria mais essencial é portanto teológica e esta assegura-lhe o nome de ciência teológica.

40.     Da teologia dogmática e moral difere a Liturgia por seu fim. A teologia dogmática trata de Deus como objeto do conhecimento; a Liturgia considera-O como objeto do culto público. A teologia moral ocupa-se da liceidade ou iliceidade dos atos humanos; a Liturgia, da sua correta execução, enquanto prescritos no culto público. Por conseguinte: a Liturgia, como disciplina teológica, é a parte da teologia que trata dos atos humanos, enquanto são meios para o culto público de Deus e para a consecução do fim último.



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