28 abril, 2011

LITURGIA - INTRODUÇÃO - PARTE 2


§ 11. AS FONTES DA LITURGIA


41.     1. Dos três primeiros séculos não possuímos notícias certas de livros litúrgicos completos. Salva a substância do rito, o liturgo tinha grande liberdade. Certo, porém, é que ao menos algumas orações litúrgicas foram escritas e conservadas já no II século; pois Orígenes menciona orações litúrgicas que provavelmente tirou de escritos litúrgicos.

42.     2. Dos séculos posteriores existem livros litúrgicos:

1) Os sacramentários, que continham os textos sacros para a missa e poucos outros ritos. Os principais são: o Gelasianum (séc. V), o Leonianum (séc. VI), o Gregorianum (séc. VII).
2) Antiphonarium, com os cantos para o côro.
3) Lectionarium, com as lições do Evangelho e das epístolas.
4) Libellus Missae, com o cânon da missa.
5) Mais tarde, desde o século IX, o missale plenum, ao modo do missal moderno.
6) Ordo, livro das rubricas.
7) Psalterium, livro dos salmos.

43.     3. Depois da reforma tridentina número dos livros litúrgicos aumentou: Missale, Breviarium Romanum, Rituale, Martyrologium, Pontificate Romanum, Caeremoniale Episcoporum; Memoriale Rituum, no ano de 1625, prescrito. Só para Roma, mas por Pio VII (Vermeersch, Ep. iur. can. II, p. 311), no ano de 1825, promulgado para toda a Igreja; Octavarium, Instructio Clementina para a adoração de 40 horas, Kyriale seu Ordinarium Missa (1905), Graduate (1907), Officium pro defunctis (1909), Cantorinus (1911), Antiphonale diurnum (1912), Propria officiorum et missarum alicuius di oecesis, Ordinis seu Congregationis , Religiosm, Collectio Decretorum Sacrm Rituum Congregationis (1911, d. 4266 ad 9).


§ 12. O DESENVOLVIMENTO DA LITURGIA


44.     1. A Liturgia divinaNo antigo testamento todo o culto do povo de Israel foi ordenado por lei divina. Os deveres múltiplos dos sacerdotes israelitas, bem como o modo de oferecer os vários sacrifícios, foram minuciosamente revelados por Deus a Moisés, que os fixou no livro Levítico.

A Igreja do novo testamento devia abranger todos os povos do mundo, tão distantes, tão diferentes em costumes. Um novo culto público tornou-se indispensável. O Legislador divino criou-o e estatuiu para a nova Liturgia, que consiste, mormente na missa, umas poucas leis, encarregando a sua Igreja de alargá-las com cerimônias convenientes, sob a direção do Espírito Santo. As partes essenciais da missa, a forma essencial dos sacramentos, o Padre Nosso formam os elementos da Liturgia divina.

45.     2. A Liturgia apostólicaOs apóstolos contentaram-se a princípio com os poucos ritos divinos e acompanharam-nos com as orações e algumas cerimônias, que conheciam do templo. O próprio Salvador tinha empregado antigos e novos ritos; pois tinha preparado a primeira consagração eucarística com o rito da páscoa antiga. Esta ordem conservou-se nas duas partes da missa: a missa dos catecúmenos e a missa dos fiéis. Na primeira havia orações e leitura da sagrada Escritura, na segunda a consagração; divisão esta que se encontra desde o princípio do cristianismo.

46.     Os apóstolos usaram o seu direito litúrgico. S. Paulo, p. ex., ordenou que as mulheres viessem para a reunião dos fiéis de cabeça velada. (1 Cor 11.)
Quais dos ritos hodiernos foram introduzidos pelos apóstolos, não podemos definir com certeza. Sabemos, porém, que os apóstolos receberam do divino Redentor a ordem: "Depois de doze anos, sai para o mundo, a fim de que ninguém diga: não ouvimos nada." (Post duodecint annos egredimini, ne quis dicat: non audivimus. Clemens Alex. Strom 6, 5, 43; Apollonius em Eusébio, Histór. Eccl. 5, 18, 14; outro autor fala de 7 anos.) A cronologia bíblica, baseada também em outros cálculos, chegou quase ao mesmo número de 12 a 13 anos. (Pirot, Dict. d. 1. bible 1928, Suppi. I, p. 1294-1295.) Sem dúvida, durante estes 12 anos em Jerusalém, todos os apóstolos celebraram os santos mistérios, e a Liturgia, em geral da mesma maneira. Por isto é muito provável que os ritos comuns a todas as Liturgias tenham por autores os apóstolos.

47.     Também foi sempre tradição da igreja que na Liturgia há partes instituídas por eles. S. Basílio (+ 379) diz que os ritos litúrgicos, usados por toda parte e cujo autor é desconhecido, dimanam da autoridade dos apóstolos. Portanto, a leitura da escritura sagrada, o Sursurn corda e as outras saudações e respostas antes do prefácio, o cânon, foram introduzidos por eles.

48.     Quando se disse a primeira missa pelos apóstolos, não sabemos. Mas é provável que fosse no próprio dia de Pentecostes; pois a missa é a parte essencial do culto da Igreja, que neste dia principiou a desempenhar as funções sagradas. (Bellarm., De cultu Sanctor. III, c. 11.) A Igreja costumava dar logo aos batizados a s. comunhão. Maria SS. Desejava tanto receber Jesus Cristo nas espécies sacramentais. S. Tomás diz: celebramos a instituição do SS. Sacramento especialmente naquele tempo, em que o Espírito Santo ensinou os corações dos discípulos a conhecer perfeitamente os mistérios deste sacramento. Pois também no mesmo tempo foi que os fiéis começaram a receber este sacramento. (S. Tomás, Opúsc. 57, II die infra oct. Corp. Chr.)

Bento XIV (Inst. 21. n. 13; Festa Dom. c. 11, n. 42) cita o opinião do cardeal Bona, de que antes de pentecostes não se podia propriamente dizer a missa; pois não convinha oferecer o novo sacrifício, enquanto o sacerdócio ainda não fora transferido. Concorda com isto a Escritura Sagrada. Pois diz que os apóstolos antes da vinda do Espírito Santo perseveraram unânimes em oração (At 1, 14), sem mencionar a comunhão do pão, por não haver ainda missa. Tendo recebido o Espírito Santo, continuaram na "comunhão da fração do pão". (At 2, 42.) Pois então havia missa e comunhão.

49.     3. A Liturgia primeva eclesiástica. Os apóstolos legaram aos seus sucessores o poder sobre a Liturgia e o cuidado dela. Fixá-la inteiramente foi impossível por causa das perseguições e do segredo severo relativo aos santos mistérios. Os cristãos, quase sempre acossados pelos satélites dos tiranos, não queriam deixar cair nas mãos dos pagãos um livro completo dos seus ritos santos.

Mais tarde, conformando-se com os costumes do povo respectivo, os bispos adotaram também cerimônias, já conhecidas, contanto que não fossem contrárias à doutrina cristã, ou próprias do paganismo.

Esta formação deu-se, antes de tudo, nos grandes centros de civilização. Pois sabemos que os apóstolos procuravam de preferência cidades importantes: Antioquia, Corinto, Éfeso, Roma. Os seus sucessores fizeram o mesmo. Em redor das suas cidades episcopais fundaram outras comunidades religiosas, dependentes do centro também quanto à Liturgia. Pois eram sacerdotes da metrópole que plantavam a nova vinha do Senhor. Pouco a pouco, formou-se uma Liturgia comum a muitos lugares e finalmente a uma região inteira.

50.     Como este processo natural se efetuasse igualmente no Oriente e no Ocidente,originaram-se várias Liturgias, consentâneas nos ritos essenciais, diferindo, porém, nas cerimônias acidentais. As modificações tinham a origem nos esforços de paralisar a influência dos costumes pagãos e, mais tarde ao menos, na influência de príncipes, de mosteiros, dehomens insignes ou de piedade privada. Principiou esta formação em maior escala depois de terminar a perseguição pagã pelo edito de Milão em 313; mas o poder dos bispos foi cada vez mais restringido, até que, finalmente, o direito litúrgico foi reservado aos concílios provinciais.(Conc. tolet. 633,cân. 12.)
Já que o desenvolvimento percorreu as mesmas fases nas Igrejas orientais e ocidentais, devemos distinguir Liturgias orientais e ocidentais.


§ 13. AS LITURGIAS ORIENTAIS


51.     As Liturgias orientais podem-se reduzir a dois grupos, que tomam sua denominação dos centros principais: Jerusalém e Alexandria.

I. O primeiro é o grupo da Liturgia de Jerusalém.

1. A Liturgia chamada de S. TiagoÉ, sem dúvida, fundamentalmente obra do primeiro bispo de Jerusalém. Pode ser considerada tipo das Liturgias orientais. (Kössing Kaulen, s. v. Kirchenlexikon.)

52.     2. A Liturgia antioquenaConhecemo-la só por algumas observações de S. João Crisóstomo. Antioquena é também a Liturgia clementina conservada no livro 8° das "Constituições apostólicas", que são, quanto à redação, obra de teólogo antioqueno feita cerca de 380. Esta desapareceu.

53.     3. Liturgia jacobíticaEm versão siríaca está em uso nas igrejas dos monofisitas chamados jacobitas, conforme o nome do autor do cisma, Jacó Baradai (+ 578). Contam-se perto de 50 "Liturgias" de menos importância criadas por eles. A Liturgia normal é permitida aos "unidos" com Roma.

54.     4. A Liturgia dos maronitas traz o nome de S. Marão (+ cerca de 423). Tem muitos elementos da Igreja romana: é em língua siríaca antiga.
5. A Liturgia armêniacom elementos gregos e mesmo romanos, introduzidos na época das cruzadas.
6. A Liturgia nestorianaem Curdistão, na Pérsia, em língua siríaca.
7. A Liturgia caldéia, i. é, o rito dos nestorianos unidos no século 16 com Roma, na Síria, Pérsia, Iraque; tem elementos romanos.
8. A Liturgia siro-malabáricaigual à Liturgia nestoriana. A Liturgia dos "unidos" tem elementos romanos.

55.     9. A Liturgia bizantinasemelhante na sua ordem à de S. Tiago (Kóssing, Kaulen no Kirchenlexikon, s. v. Liturgie), usa três fórmulas atribuídas a três santos: uma a S. Gregório Magno, outra, breve e mais antiga, a S. João Crisóstomo, a última a S. Basílio, mais extensa e modificada por este santo. Estas duas últimas existem em língua grega entre os gregos, entre os russos em russo, entre os sérvios, rutenos e búlgaros em eslavo antigo, entre os geórgios em geórgio, entre os romenos em romeno.

Além da Liturgia bizantina, também a romana foi traduzida em eslavo antigo por S. Cirilo e está ainda em uso. Em algumas dioceses é permitido escrever os livros litúrgicos, sem mudar o texto, em, glagólico, forma antiga e por isso muito estimada das letras eslavas. Na última edição do missal eslavo (1927) só o cânon é impresso em letras glagolíticas, o resto do missal em letras latinas:
Como se vê, a Liturgia bizantina conquistou grande parte do Oriente. Outrora em vigor na Itália meridional e Sicília, hoje está restringida a poucas dioceses.

II. O segundo grupo é o de Alexandria, no Egito.

56.     1. A Liturgia egípciaatribuída a S. Marcos, fundador da Igreja de Alexandria; é em língua grega. Desapareceu debaixo da influência do patriarcado de Constantinopla. A única em vigor desde então foi a bizantina. A antiga Liturgia de S. Marcos ainda é usada sob o nome de Liturgia de S. Cirilo, traduzida para várias línguas, inclusive a arábica (Melchitas) .
2. A Liturgia cóptica é de S. Cirilo (= S. Marcos) em língua saídica e boáirica, dois dialetos dlíngua egípcia.

57.     3. A Liturgia etiópica é o monumento mais antigo de Liturgia fixa. Foi escrita no III século com o nome de apostoliké parádosis (tradição apostólica) e é atribuída a S. Hipólito. Estava muito espalhada no Oriente, mas conservou-se só em versão cóptica, e é usada na Etiópia na língua antiga geez sob o nome de "Liturgia dos santos apóstolos"; é a Liturgia normal, ao lado da qual existem cerca de 10 outras.


§ 14. AS LITURGIAS OCIDENTAIS


58.     As Liturgias ocidentais usam a língua latina. Somente algumas dioceses da Iugoslávia têm a Liturgia romana em versão eslávica antiga, impressa com letra especial, a glagolítica.

A respeito da origem das Liturgias ocidentais escreve o papa Inocêncio I (+ 419) numa carta: "É manifesto que ninguém em toda a Itália, Gália, Espanha, África e ilhas adjacentes fundou igrejas, senão as que o apóstolo Pedro ou seus sucessores estabeleceram como bispos. Daí se segue que estes têm de guardar o que guarda a Igreja romana, da qualsem dúvida, tiram sua origem." (Eisenhofer, p. 31-39; Gatterer. Ann. lit. p. 31.)

59.     1. A Liturgia galicanahoje fora de uso, estava muito espalhada antes de Carlos Magno. Chama-se galicana por Causa de seu emprego geral na França (Gália). Assemelha-se em vários pontos às Liturgias orientais; na sua essência, porém, parece rito romano. Os elementos gregos explicam-se mormente pela influência da Liturgia de Milão. Foi abolida por Carlos Magno.

Conforme relata Durandus (V, c. 2, n. 5), coagiu todos os clérigos com ameaças e suplícios a observar a Liturgia gregoriana (romana) e a queimar os livros da Liturgia ambrosiana (galicana). Razão principal teria sido que a Liturgia ambrosiana instituía muitas coisas segundo o rito grego. O papa Adriano I ordenou que a Liturgia romana fosse observada por toda parte. Esta notícia corresponde à situação política. Tanto o papa como Carlos Magno queriam diminuir a influência grega no Ocidente. Por isso Carlos exigia que os sacerdotes fossem examinados, para ver se sabiam de cor e entendiam as orações da missa segundo o missal romano. (Conc. Aq. 802; Hefele K. G_ Ill, p. 744.)

60.     2. A Liturgia ambrosianadenominada de S. Ambrósio, bispo de Milão, parece também de origem romana com elementos gregos. Estes se explicam pela presença e influência dos gregos em Milão; foi esta cidade por algum tempo residência imperial e sé de um bispo ariano, Auxêncio, natural da Capadócia (séc. IV).

Eugênio IV mandou ao cardeal Branda de Castiglione que introduzisse em Milão a Liturgia romana. Mas o povo, muito apegado a seu rito costumado, exasperou-se tanto que o cardeal viu-se obrigado a fugir às pressas. Ainda é vigente na diocese, de Milão e nalgumas dúzias de paróquias das dioceses de Bergamo, Novara, e do Cantão Ticino (Suíça).

61.     3. A Liturgia mocarábica tem o seu nome dos moçárabes (assim se chamaram os cristãos debaixo do domínio dos árabes na Espanha). A sua Liturgia estava em vigor no reino dos visigodos. Está infiltrada de elementos galicanos.

Temendo os papas pela pureza e união da doutrina católica, procuraram introduzir o rito romano. Grande foi a resistência. Gregório VII, auxiliado pelos príncipes dos reinos cristãos, conseguiu vencê-la. O rito romano foi admitido com grande pompa pela primeira vez no convento de S. João de La Pena, no dia 20 de março de 1071, na presença do legado pontifício Hugo Cândido, do rei D. Sancho Ramirez, dos bispos e de toda a corte. A Liturgia moçarábica conservou-se somente no reino arábico de Granada. Com a conquista desta cidade parecia extinta. Mas o cardeal Ximenes mandou imprimir um missal e um breviário moçárabe e fundou um colégio de sacerdotes encarregados de celebrar numa capela da catedral de Toledo missa e ofício em rito moçárabe. Fundação semelhante foi feita por Rodrigo de Talavera na catedral de Salamanca. Em Toledo existem ainda duas paróquias moçárabes: a das Ss. Justa e Rufina e a de S. Marcos.

Algumas outras Liturgias conhecemos só em fragmentos, ex., a céltica na Gália, a africana na África do Norte.


§ 15. A LITURGIA ROMANA


62.     Como o rito romano, essencialmente, foi sempre o mesmo, assim o rito de todo o Ocidente foi, essencialmente, como parece, sempre o romano. No desenvolvimento do rito romano podemos distinguir várias épocas de duração aproximada. Esta sistematização não pretende marcar uma interrupção do processo historicamente contínuo, mas facilitar a sua compreensão.

I. A Liturgia romana meio fixa e meio improvisada (c. 100-400). Dos primeiros séculos não possuímos nenhum livro litúrgico do rito romano. A chamada "Tradição apostólica" exarada, como se afirma, em Roma por S. Hipólito, no tempo do papa Calisto (217-222), existe, como foi dito, na versão cóptica. É, porém, incerto, se representa o texto oficial da Igreja romana. Mas pode-se supor que, ao menos, não se afasta muito dela; do contrário teria ofendido os seus partidários.

Este rito é brevíssimo. Principia pelo Sursum corda com prefácio, segue-se uma oração de ação de graças pela redenção (eucaristia), consagração, Unde et memores, epiclese, comunhão. O resto do serviço divino estava entregue ao arbítrio do bispo, contanto que não deixasse a explicação da sagrada escritura, a oração pelas várias classes dos fiéis, a devida preparação da matéria para o sacrifício.

S. Justino mártir (+ 167) diz que o bispo agradece o dom eucarístico "ainda por bastante tempo, na medida da sua força." (Eisenhofer, p. 58. 1. Apol. c. 65, c. 67.) Liturgias semelhantes existiam no século IV, em Antioquia na Síria, "As Constituições Apostólicas" 1. 8; no Egito o eucológio (missal) do santo abade Serapião de Tmuis (+ c. 360).

63.     II. A Liturgia romana toda fixa (c. 400-700). É a época dos sacramentários. O sacramentário era livro litúrgico, usado até ao século 13, que continha principalmente o cânon e as orações mutáveis do ofício; para as lições e cantos era necessário outro livro.

1. O primeiro é o sacramentário leoninoem grande parte obra do papa Leão I (440-461). 175 textos desta coleção litúrgica ainda se acham em nosso missal; falta, porém, o cânon.
2. O gelasianona opinião dos célebres liturgistas Tomluasi e Muratori, foi redigido no séc. V, provavelmente pelo papa Gelásio (492-496) mesmo.

3. O gregorianoque é a base do nosso missal romano moderno. S. Gregório Magno (+ 604) compôs um sacramentário, que, porém, se perdeu; o exemplar completo mais antigo é do ano 812. Aboliu a multiplicidade de ofícios, prescreveu, em lugar das duas, só uma oração cada dia, reduziu os 54 prefácios do gelasiano a 10 e acrescentou alguns ofícios. Destes sacramentários se segue que a Liturgia da missa, ao menos desde o século VII, tem sido sempre, com poucas exceções, a mesma.

64.      III. A Liturgia romana generalizada (c. 700-1500). O papa S. Gregório mandou em 597 para a Inglaterra o monge beneditino S. Agostinho com 40 companheiros. Implantaram a Liturgia romana naqueles reinos, impedindo a propagação da Liturgia céltica, trazida pelos monges irlandeses (Coelho, I, 224).

Da Inglaterra a Liturgia romana passa com os missionários ingleses, S. Vilibrordo e outros, para a Frísia; com S. Ansgário, para a Dinamarca e Suécia, com S. Bonifácio, para a Alemanha e o país dos francos, onde, protegida por Pepino e Carlos Magno, suplantou a Liturgia galicana, aceitando, porém, alguns elementos galicanos. Esta Liturgia da corte tornou-se geral em todos os países do reino dos francos e também em Roma. Nos reinos da península ibérica, a Liturgia romana foi propagada mormente pelos beneditinos de Cluni, que contribuíram para a supressão da Liturgia moçárabe.

65.     IV. A Liturgia romana única (desde 1500). Os sacramentários só continham as fórmulas para a missa solene. As missas privadas, muitas vezes, particularmente no concílio de Treves (1310), proibidas, generalizaram-se; novas festas foram introduzidas e os papas deixaram liberdade nas matérias não contidas no sacramentário romano. Assim, pouco a pouco se formou grande diferença na Liturgia de vários países e dioceses.

Ao concílio de Trento foram dirigidos pedidos no sentido de reformar também a Liturgia e reduzi-la à unidade. Em conseqüência disso o papa Pio V publicou o novo breviário (1568) e o novo missal (1570) para toda a Igreja. Sisto V (1588) instituiu a Congregação dos Ritos, encarregada de fiscalizar e desenvolver o rito romano, de maneira que novos abusos não se pudessem arraigar tão facilmente. As (c. 80) dioceses da França que tinham abandonado a reforma piana e editado livros litúrgicos próprios, no século XIX adotaram a reforma de Pio V. Existe, assim, unidade na Igreja romana.

66.     V. Reforma de Pio X. Este papa introduziu o antigo costume de recitar no breviário, cada semana, todo o saltério, sem tornar o ofício mais comprido e sem diminuir o culto dos santos. (Edição de 1914.) No missal, os domingos, e principalmente as férias maiores da quaresma, ocuparam uma posição mais própria, para favorecer o espírito do ano eclesiástico. (Edição típica de 1920.)

67.     Liturgias romanas antepianas. Pio V tinha abolido só os missais e os breviários que não tinham em seu favor aprovação pontifícia ou costume superior a 200 anos. Por isso conservaram-se algumas Liturgias antigas no Ocidente:

1. O rito monástico dos beneditinos e das ordens da mesma regra.
2. O rito cisterciense dos monges de Cister, reformados pelo abade Cláudio Vaussin em 1641; é bastante diferente do rito romano.
3. O rito carmelitano ou hierosolimitano, empregado pelos carmelitas observantes.
4. O rito dominicano, muito semelhante ao carmelitano; é próprio dos dominicanos.
5. O rito cartusiano, que não difere muito do romano; é próprio dos cartuxos.
6. O rito premonstratense, próprio dos cônegos regulares premonstratenses.
7. O rito da diocese de Braga, próprio da arquidiocese de Braga, em Portugal.
8. O rito da diocese de Lião, na França; é quase todo romano. Todos estes ritos têm missal próprio, breviário próprio, ritual cerimonial, com exceção do rito monástico, que tem só breviário próprio, e do rito de Lião, que tem só missal próprio. (Piacenza, Liturg., p. 10.)
A Liturgia ambrosiana e a moçárabica já foram mencionadas.


§ 16. A LEGISLAÇÃO LITÚRGICA EM VIGOR


68.     I. O direito supremo de legislar sobre a Liturgia pertence ao sumo pontífice. "Unicamente à Sé Apostólica compete ordenar a sacra Liturgia e aprovar livros litúrgicos."(Cân. 1257.) Este direito não lhe foi conferido pelos bispos, mas é direito divino, essencial ao sumo poder do papa. (Gatlerei Ann. p. 45.)
Os bispos e outros prelados têm a obrigação de executar os decretos do papa (cân. 1260) e conservar o culto nas suas dioceses.

II. A S. C. dos Ritos foi instituída para vigiar os ritos e as cerimônias de toda a igreja latina. Para os ritos das igrejas orientais é competente a Congregação para a igreja oriental, cujo presidente é o papa pessoalmente. .

69.      III. Leis litúrgicas podem-se originar também pelo costume legítimo. Há costume(contra, praeter et secundum legem) contrário à lei, fora da lei, conforme a lei.

1. Tem caráter obrigatório um costume litúrgico, até mesmo contrário às rubricas, contanto que seja razoável e legitimamente prescrito. Para a missa, porém,. vale o cânon (818), em que "qualquer costume contrário" às rubricas fica expressamente "reprovado".Todavia há exceções. É costume vigente e tacitamente tolerado, mas contrário à rubrica, p. ex., vestir a alva sem ter posto a sobrepeliz; não ministrar a purificação aos fiéis que comungam. Expressamente tolerado é o uso, p. ex., de não acender uma terceira vela à elevação.
2. Com mais facilidade é possível um costume fora da lei e conforme à lei.

IV. 1. Se houver abusos numa diocese (d. 2621, ad 1), é o prelado que tem de corrigi-los e não os sacerdotes.
2. Conforme as respostas da S. C. R., o prelado cuidará de instruir (d. 3333 ad 2) o povo quanto a tais abusos, e introduzirá pouco a pouco o rito legítimo; evite-se o escândalo do povo. (d. 3579 ad 1 et alibi.)


§ 17. OS LIVROS LITÚRGICOS VIGENTES


70.     Os prelados do Concílio Tridentino deixaram ao sumo pontífice o cuidado de reformar os livros litúrgicos. Os livros litúrgicos editados por Pio V e seus sucessores já foram brevemente indicados no capítulo que trata das fontes litúrgicas.

I. O Breviário romano de 1568. Publica-se em 2 edições ou em um tomo grande(Totem) ou em quatro volumes pequenos. A ordem nas duas edições é igual. (Ver n. 828.)

71.      II. O missal. A ordem em geral é a mesma do breviário.
1. Proprium de tempore. Compreende as missas assinaladas para os domingos e férias maiores. Entre as cerimônias do sábado santo e a festa da ressurreição se acha o ordo e cânon da missa.
2. Proprium sanctorum.
3. Commune sanctorum.
4. Várias missas votivas e orações.
5. Missa defunctorum.
6. Benedictiones.
7. Missre pro aliquibus locis.
8. Proprium dicecesanum, ou regionale.

De todos os livros litúrgicos o missal é o primeiro e o mais venerável, representando Nosso Senhor, cujas palavras contêm, honrado com incenso e ósculo, levado em procissão, monumento da tradição multissecular católica, jóia literária de perfeita beleza, livro oficial da Esposa de Cristo no ato mais santo do culto, adornada por isso na piedosa idade média com ricas miniaturas e ornamentos em profusão e sempre de novo editado, enriquecido com devotas e artísticas ilustrações e vinhetas.

Imprimiu-se pela primeira vez em Milão em 1474. A primeira edição oficial data de 1570, a última típica de 1920.

III. Martyrologium romanum, em 1584 por Gregório XIII.
IV. Pontificate romanum, em 1596.
V: Caeremoniale episcoporum, em 1600.

O cerimonial dos bispos obriga em consciência:

a) Todas as igrejas latinas sem exceção alguma. Bento XIII (Bulla Licet alias 1727) : "(Caremoniale) in universali Ecclesia ab omnibus et singulis personis, ad quas spectat et in futurum spectabit, perpetuo observandum esse, in virtute sanctat obedientim pr cipimus et mandamus";
b) Portanto também as igrejas latinas com próprio missal e breviário;
c) nomeadamente as igrejas catedrais e colegiadas e as pessoas a elas adscritas, nas suas funções litúrgicas;
d) todos os sacerdotes no que lhes diz respeito. Inocêncio X (Bulla Etsi alias, 1750) : "Quascunque personas, qux sacerdotalia munera exercere, aut alia quoecunque in ipso ceeremoniali contenta facere, ant exsequi debent, ad ea peragenda et prstanda juxfa hujus C eremonialis formam et prascriptum teneri."

Quais sejam estas prescrições se deve deduzir do teor e do fim das rubricas ou das declarações da S. R. C. Costumes louváveis são permitidos. (Cf. as bulas de Clemente VIII, Bento XIV de igual vigor, à frente da edição típica do cerimonial de. 1886; os muitos decretos da S. R. C. Wernz-Vidal, Ins can., 1934, t. IV, n. 336.)

VI. Rituale romanum, em 1614. O ritual é obrigatório para as dioceses que, seguindo a exortação de Paulo V, o adotaram, ou foram fundadas depois da publicação do ritual. Contudo permite-se usar o ritual romano também naquelas dioceses que possuem ritual próprio prescrito pelo bispo diocesano. (d. 3792 ad 9.)

72.     VII. Memoriale Rituum. Editado por Bento XIII, traduzido na C. P., reeditado por Bento XV em 1920, regula, para as igrejas que não dispõem de muito clero, as funções da festa de nossa Senhora da Candelária, da quarta-feira de cinza e da semana santa. Foi prescrito para as igrejas paroquiais de Roma.

Contudo a S. R. C. consultada, costuma responder que nas igrejas paroquiais se deve observar o Mrnioriale Rituum. Igrejas não paroquiais (d. 4049 ad 1) precisam para as funções da Semana Santa:
1) se as funções se podem executar conforme as rubricas do missal (diácono, subdiácono), da licença do bispo;
2) se querem usar o Memoriale Rituum (sem diácono, subdiácono), a licença da Santa Sé. (Mem. Rita p. 8.)

VIII. Os livros de canto eclesiástico já foram enumerados.
IX. O Octavarium Romanum contém as lições do 2.° e 3.° noturno para o ofício de mistérios e santos, cuja oitava se celebra em igreja particular. O seu uso é permitido, porém não prescrito.

73.     X. Instructio Clementina aprovada por Clemente XII em 1735.

1) Foi prescrita para as igrejas de Roma; trata da exposição solene do SS. Sacramento durante 40 horas.
2) É diretiva para as igrejas fora de Roma; é louvável observá-la. (d. 2403: instructionem extra urbem non obligare.)


§ 18. PUREZA DO RITO


74.     1. Para impedir a impressão de livros litúrgicos menos exatos, existem leis eclesiásticas rigorosas.

primeira ediçãofiscalizada pela S. R. C., se chama típica. É fornecida ou por uma tipografia autorizada ou, nos últimos tempos, pela tipografia Vaticana. As outras edições (justatípicas), organizadas pelas várias casas editoras, precisam só da aprovação do bispo competente, dada depois de se verificara exata conformidade com a edição típica.

2. As emendas novas dos livros litúrgicos, prescritas pela S. R. C., devem ser inseridas nas edições futuras. As edições antigas (Urbano VIII, in Bulla Missali inserta) podem ser usadas até serem imprestáveis, se não for disposto o contrário como se fez para as edições antigas do cantochão. Pois, quando apareceu a edição Vaticana típica do Gradual (1907), Pio X (d. 4203) determinou: "Cetera editiones, ad tempus tantummodo tolerat, nullo iam in futurum dure gaudeant, quo typicw substitui possint."


§ 19. OBRIGAÇÃO DAS RUBRICAS


75.     A distinção entre rubricas preceptivas e diretivas é admitida pelos autores comosententia communis, apesar das afirmações de alguns liturgistas em contrário. Diz, p. ex., Lehmkuhl (II, 238):
"As rubricas que regulam o que antes e depois da missa se deve fazer, provavelmente não devem ser consideradas como preceptivas, mas somente como diretivas, i. é, infringi-las não é propriamente pecado, mas parece menos conveniente, a não ser que haja razão justa para agir de outra maneira ou se cumpra equivalentemente a rubrica. (S. Alf. n. 399.) O que acumulam nos últimos tempos para a interpretação mais rigorosa não é novo, e foi já ponderado pelos antigos autores e contudo não julgado concludente." Às rubricas de defectibus chamam diretivas.


§ 20. OS DECRETOS DA S. CONGREGAÇÃO DOS RITOS.


76.     Condições. Para que os decretos da S. C. dos Ritos tenham força obrigatória, devem ser autênticos, i. é, assinados pelo prefeito e secretário (ou substituto) da S. C. R. e munidos com o seu selo. Em caso de necessidade é suficiente a assinatura do prefeito ou secretário (ou substituto).

2. Divisão. Os decretos são gerais ou particulares.

Os decretos gerais (Decreta generalia) obrigam, conforme a matéria, ou toda a Igreja ou uma ordem, ou um país inteiro. Vêm sob o título "Decretum generale" ou "Urbis et Orbis", ou trazem a cláusula "Ubique servari mandavit".

Os decretos particulares ou concedem uma graça ou tratam de costume ou de cerimônia particular: Os da primeira classe valem só para a pessoa agraciada. Os da segunda classe obrigam a pessoa que consultou, ao menos em geral. Pois per accidens obrigam toda a Igreja, se, pela resposta particular, somente se aplica uma lei universal certa, ou se o decreto particular contém a interpretação compreensiva de lei geral.
Embora um decreto particular não imponha obrigação, sempre é permitido considerá-lo em outro lugar como norma diretiva de proceder.

3. Recurso à Santa Sé. Evite-se o recurso freqüente à S. C. R. Querer cortar todas as questões com o argumento da autoridade, diz o cardeal Gennari, é arruinar a ciência, que. consiste precisamente em deduzir dos princípios as conseqüências e aplicá-los a casos concretos; é restringir a liberdade de ação. Por isso recorra-se à Santa Sé o mais raramente possível e somente para as questões que se não podem resolver pelos princípios gerais e cuja solução os competentes buscam em vão. (Coelho, I, p. 70.)

A própria Congregação (d. 2591 ad 6) avisa: "Se houver dúvidas, pode-se achar solução em casos particulares." E sancionou a regra: "Os decretos da S. C. R., embora sejam pedidos por instâncias particulares, contudo servem de norma e exemplo nos mesmos e semelhantes casos na Igreja universal." (d. 3945.)


§ 21. RESUMO HISTÓRICO DA LITURGIA


77.     1. Desde o princípio do cristianismo foi necessário explicar os santos mistérios. Possuímos ainda tais explicações, p. ex., de S. Cirilo de Jerusalém (+ 386), de S. Ambrósio (+ 397).
Um dos mais preciosos documentos dos primeiros séculos deixou-nos Etéria, religiosa da Aquitânia, parenta da família imperial. Descreve (380-390) a sua viagem para a terra santa e os atos litúrgicos a que assistiu.

2. Na idade média desenvolveu-se a explicação simbólica da Liturgia. Dos muitos autores, sejam mencionados os mais afamados: S. Isidoro de Sevilha (+ 636), De ecclesiasticisofficiis; o diácono Amalário de Metz (+ 850?), De ecclesiasticis officiis; Bernoldo de Constância (+ 1100), Micrdlogas; Honorius de, Augustoduno (+ 1152), Gemma anima; Beleth (+ 1165),Explicatio divinorum of ficiorum; Inocêncio III (+ 1216), De sacro altaris mysterio; Durandus (bispo de Mendes, 1296), Rationale divinorum officiorum, cuja obra alcançou muitas edições.
Albertus Magnus (+ 1280), Opus de mysteriis missce; é o precursor da explicação histórica moderna.

3. Depois da reforma protestantee em oposição a ela, apareceram numerosas obras e. coleções litúrgicas: Marténe, Muratori, Assemani, Bento XIV, Gueranger são alguns dos nomes mais célebres. A literatura moderna é riquíssima. Braun, S. J. (Liturg. Handlexikon, 1924), enumera cerca de 340 obras litúrgicas de autores católicos, não contando as obras de autores não católicos que não são poucas.



 

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